Ao ler o Público, despertou-me a atenção as seguintes questões, que me parecem pertinentes!
Estamos ou não em guerra?
O Governo americano definiu desde a primeira hora a resposta aos ataques do 11 de Setembro como uma guerra. No sentido clássico do termo, não apenas metafórico. No dia 11 de Setembro de 2001, a América sentiu-se atacada. Como em Pearl Harbour. Está em guerra e age em conformidade. Cinco anos depois, George W. Bush voltou a declarar a guerra contra o terror como “o combate ideológico decisivo do século XXI”. Com um só inimigo: “os jihadistas, sucessores dos fascistas, nazis, comunistas e outros totalitarismos”. Como Osama bin Laden é o sucessor de Hitler e de Lenine. “Na guerra, a narrativa é muito mais do que apenas uma história”, escreve Michael Vlahos, na revista americana The National Interest. “Significa uma estratégia a partir da qual tudo o resto se funda”.
Na Europa, não foi esta a narrativa que emergiu depois do 11 de Setembro. Nem depois do 11 de Março ou do 7 de Julho. “É esta, talvez, a diferença maior entre os EUA depois do 11 de Setembro e a Europa depois do 11 de Março”, escrevia no PÚBLICO Dominique Moisi, professor francês de Relações Internacionais, no dia do 4º aniversário dos atentados contra as Torres Gémeas. Para os europeus, o terrorismo, nas suas múltiplas faces, do IRA à ETA passando pelas Brigadas Vermelhas, não é uma novidade. Foram precisos 50 milhões de mortos para vencer o nazismo. Estão mais inclinados a perguntar, como Estaline sobre o Vaticano, quantas divisões possui a Al-Qaeda. Cinco anos depois, em que novos termos se trava o debate em torno desta “guerra”? Depois do desastre iraquiano, das dificuldades crescentes no Afeganistão, da nova ameaça iraniana, da guerra no Líbano, os analistas de ambos os lados do Atlântico interrogam-se sobre os resultados da guerra declarada por Bush contra o terror.
O Islão e a democracia são compatíveis?
Há uma resposta política a esta questão. No Iraque ou no Afeganistão, no Líbano ou na Palestina, as pessoas votam com o mesmo espírito dos europeus de Leste depois da queda do comunismo. Na Indonésia ou na Turquia, milhões de muçulmanos vivem em democracia. Nos países islâmicos, centenas de políticos, intelectuais, escritores ou clérigos estão nas prisões por defenderem a separação entre a religião e o Estado. Há, depois, o debate filosófico. Se a verdadeira natureza do islão é a submissão inquestionável a Alá e à lei islâmica (sharia), como pode o islamismo ser compatível com a democracia, que assenta na liberdade individual? Não está, pelo menos em parte, na religião, a resposta às dificuldades do mundo islâmico (sobretudo pelos países árabes) para se modernizarem? E a pergunta seguinte, porventura a mais crucial: há apenas uma interpretação do islão ou há várias?
O fim do multiculturalismo?
O que leva jovens muçulmanos britânicos, nascidos e criados no Reino Unido, que andaram na escola e pertencem à classe média, a decidirem fazer-se explodir no metro de Londres para matar o maior número possível de cidadãos do seu país? O que falhou no tão elogiado modelo “multicultural” britânico de integração dos seus imigrantes?
O que falhou nas nossas sociedades para que 80 por cento dos muçulmanos britânicos se declarem primeiro muçulmanos e depois britânicos? Ou o que leva os jovens franceses de origem magrebina a sentirem-se cidadãos de segunda ao ponto de incendiarem os arredores de Paris, Marselha ou Bordéus? Falhou também o modelo de assimilação francês?
A democracia liberal pode ser “autoritária”?
Saber onde colocar os limites às liberdades que as democracias estão dispostas a aceitar para garantir a segurança tem sido um dos principais desafios intelectuais e morais colocados pelo 11 de Setembro. De Gauntánamo ao endurecimento das leis anti-terroristas na maioria dos países europeus. Da tortura aos limites da liberdade de expressão.
O debate é o mesmo. A realidade é diferente na América e na Europa. “Ao chamá-la de guerra (…), o Governo dos Estados Unidos justificou mudanças internas que, antes dos ataques de 11 de Setembro teriam sido inaceitáveis em qualquer país livre”, escrevia recentemente Ralf Darhendorf. “Há o risco de as democracias, no seu afã de se defenderem do terrorismo, derivarem para regimes de natureza autoritária.” Seria, então, como numerosos outros autores têm alertado, a suprema derrota da democracia face ao terrorismo.
A “revolução” americana chegou ao fim?
Cinco anos depois dos atentados de 11 de Setembro, que deram origem à “Doutrina Bush” sobre a “guerra preventiva” e a “mudança de regime”, se necessário pela força, para impor a democracia no Médio Oriente, o debate entre as diversas escolas que procuram influenciar a acção americana no mundo parece estar a mudar. A razão é simples: a percepção do fracasso americano no Iraque. O resultado também: está a ser progressivamente restaurada a autoridade dos defensores da chamada “escola realista” na boa velha tradição kissingeriana.
Deveriamos colocar a seguinte realidade perante os olhos de todos aqueles que se acham donos da verdade!
DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS
Artigo 1:
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
Artigo 6:
Todos os indivíduos têm direito ao reconhecimento em todos os lugares da sua personalidade jurídica.
Artigo 12:
Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio, ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques, toda a pessoa tem direito à protecção da lei.
Artigo 18:
Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião.
Artigo 19:
Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão
Artigo 28:
Toda a pessoa tem direito a que reine no plano social e no plano internacional, uma ordem capaz de tomar plenamente efectivos os direitos e as liberdades enunciadas na presente Declaração.