Muito provavelmente as pessoas que produzem o seu pequeno-almoço estão a ser exploradas e oprimidas devido às distorções e injustiças do comércio mundial. Na ementa do seu pequeno-almoço vamos incluir cereais de milho, leite e café!
Uma taça de cereais de milho…
Os cereais são uma boa forma de começar o dia, são ricos em fibra, energéticos e, ainda por cima fáceis de preparar! No entanto, não é assim para os produtores de milho mexicanos. O mercado mexicano está a ser invadido por quantidades astronómicas de milho norte-americano, destruindo assim o meio de subsistência de milhões de mexicanos.
O México é um dos principais produtores mundiais de milho. No entanto, segundo dados (de 1994) da Oxfam Internacional, a chegada de milho mais barato dos EUA significa, continuamente, a ruína dos produtores mexicanos. Muitos já abandonaram o cultivo da terra para migrarem para as grandes cidades, onde cada vez há uma maior concentração humana o que degrada as infra-estruturas e tem outras consequências, mais graves, como a subida a pique do desemprego destas zonas do México.
José Magdaleno, produtor de milho de Chiapas, afirma: “As importações estão a esmagar os pequenos produtores. Em menos de uma década, o milho subsidiado (vindo dos EUA) obrigou à deslocação de famílias inteiras que cultivavam milho com êxito há dezenas de anos”.
E esta, heim?
Com um pouco de leite…
Para tornar os cereais mais apetecíveis e saborosos, nada melhor do que um pouco de leite! Até há bem pouco tempo a indústria jamaicana tinha uma boa saúde, certo dia, depois de pressionado pelo Banco Mundial o Governo decidiu abrir o mercado de lacticínios às exportações. Foi uma mudança radical, quantidades enormes de leite em pó, vindos da Europa dos subsídios a preços baixíssimos, invadiram os mercados locais, arruinando os produtores locais.
Fiona Black, do Dairy Herd Services, alerta hoje: “Pedimos à Europa, por favor, ponham termo a esses subsídios. Estão a destruir os países em desenvolvimento.”
E esta, heim?
E um café, para acordar…
Em 1962, para evitar as oscilações do preço do café, os principais países produtores e importadores, com patrocínio da ONU firmaram o primeiro Acordo Internacional do Café. Mais tarde, em 1989, Os EUA não assinaram um novo acordo, sob pretexto de que os países produtores estavam a vender o café através de subterfúgios a baixo preço, aos países de Leste.
Neste novo contexto, o mercado do café ressentiu-se, originando uma crescente descida dos preços. O que não é dito é que esta oscilação dos preços afecta, e muito, a vida dos produtores, sobretudo os jornaleiros. No caso dos pequenos produtores, o preço do café – única fonte de receita – , decide coisas tão básicas como a ida dos filhos à escola.
Cem milhões de pessoas no Hemisfério Sul dependem exclusivamente do cultivo e transformação deste bem para a sua sobrevivência. No Uganda, para referir apenas um exemplo, ¾ da população recebe o seu sustento pelo cultivo e venda do café.
E esta, heim?
O açúcar, com os cereais ou com o café…
Será açúcar de Moçambique? É pouco provável! Moçambique pode gabar-se de possuir a indústria açucareira com os custos de produção mais baixos do mundo. Apesar disso, o país não tem possibilidade de competir no mercado internacional.
A UE inunda os mercados dos países pobres com toneladas e toneladas de açúcar de beterraba, açúcar produzido graças a elevados subsídios e vendido nos países em desenvolvimento a preços irrisórios.
Nos últimos anos a UE tem concedido a Moçambique 170 milhões de euros a título de ajudas de emergência e desenvolvimento, incluindo uma verba para ajudar a “melhorar e desenvolver as comunidades agrárias rurais”. Parece um pardoxo, mas é verdade!
Afinal, não beneficiariam mais, todos os produtores do Hemisfério Sul, se o comércio fosse, para além de livre, justo e solidário para com os países em desenvolvimento?
Já agora, bom pequeno-almoço!!!! Texto adaptado de João Fernandes, no âmbito da Iniciativa “PONTES entre o Comércio e o Desenvolvimento Sustentável”, promovida pela OIKOS